Quinta-feira, 18 de Outubro de 2007
Ai...Setembro

Tinha este post em rascunho desde Setembro...

“recebe o Setembro
de braços abertos
cobertos
com olhos
rasos de maresia
ao som da cotovia
vivendo o retorno
do Outono
pintado nas telas
como fora um jardim
plagiando tuas velas
ardendo até ao fim”

Setembro. Diz-me tanto este mês…

Não por um marco de algum acontecimento importante, mas por ser um turbilhão de sentimentos que tenho sempre que Setembro começa.

É o início do ano. Verdadeiramente.

31 de Agosto devia ser a passagem de ano, não 31 de Dezembro.

É quando faço um balanço, quando faço planos, quando limpo a secretária…enfim, é o início de mais um ano. Compreendo este sentimento por ter sido tão marcada, no bom e no mau, pela escola. Tive 25 anos de escola…meu Deus…25 anos de  escola.

 

O início, o começo, o novo….pasta, livros, cadernos, lápis, caras amigas, professores, disciplinas, escola…tanta coisa nova sempre que Setembro começava.

O fim, o acabar…do Verão, das férias, das vindimas…tanta coisa que terminava sempre que Setembro começava.

 

25 anos de Setembro com um misto de alegria, saudade, expectativa e nervosismo miudinho.

 

Claro que me marcou, claro que tinha de me marcar, claro que Setembro me marcou.

 

Nervoso miudinho…voltou

Pensei que tinha livrado dele quando “larguei” a escola. Lembro-me tão bem, quando terminei a bendita licenciatura, respirei de alívio e disse para mim: “pronto…acabou, nunca mais quero sentir o começo das aulas e este frio na barriga em Setembro, nunca mais quero professores, exames, trabalhos de grupo, preocupações de estudante…NUNCA MAIS!!!”

 

Incrível. O ciclo recomeçou.

O meu pedacinho de mim vai iniciar-se nestas andanças. Comprei-lhe uma mochila, um estojo, 3 lápis, uma afiadeira (como se dizia nos meus tempos da primária) e dois cadernos. Dei-lhe uma quanta dose de entusiasmo…falso, muito falso…mas bem disfarçado….coitadinho…ficou cheio de vontade de ir para a escola e não largou mais os seus novos apetrechos.

 

A escola marcou-me mesmo muito. Nunca pus em causa largar…isso nunca, afinal o meu sonho de ser  “a princesa” era muito forte.

O que senti ao comprar o material para o meu pedacinho de mim, é indescritível…apetecia-me bater o pé dizer:  não quero ir…estou farta.

 

Será que vou conseguir disfarçar tudo isto tantos anos.

Faço tudo para ele não criar medos e avançar pela vida fora como um vencedor nato.

 

Ela marcou-me…

Já conhecia a professora, com fama de bruxa má. Diziam que arrancava os brincos com os puxões de orelhas, que dava reguadas, que tinha uma cabeleira postiça e dentes de ouro, que havia meninos que faziam chichi pelas pernas abaixo com medo.

Eu conhecia-a, era a mesma naquela escola há tantos anos. A professora era aquela, não existia outra, não existia o reclamar dela, o fazer queixa…qual quê.

A escola era aquela, a única que eu conhecia, a única que eu pensava que existia. Não havia sequer o pensamento de mudar para outra escola melhor…qual quê.

O meu irmão…coitado, o que sofreu na escola. Eu pequenita apercebia-me  que ele “apanhava” na escola. Lembro-me ter muita pena dele e imaginar alguém a bater-lhe sem ser a nossa mãe.

 

 

 

Lembro-me do meu primeiro encontro com a professora. A tal.

 

Vá à merda…

Um dia fui levar o pão com manteiga ao meu irmão. Entrei pela sala da escola e entreguei-lho. Ignorei-a. Afinal ela era uma bruxa má.

De repente ela diz-me lá do fundo:

- não se diz bom dia?

Ai, Ai, o que ela foi dizer ao “carneirinho enfurecido.”

- VÁ À MERDA.

Respondi com tanta raiva que me lembro, como se fosse hoje.

 

Pensei: “pronto, a partir daqui ficou tudo estragado. 

 

Foi assim o primeiro contacto.

 

O meu primeiro Setembro…

Estava no meu primeiro Setembro de início escolar. Dias antes do dia D.

Espreitei o meu pai,  o meu avô e a minha mãe a falar com a “dita cuja”  à minha porta. Não apareci, escondi-me a ouvir. Falavam da minha entrada. Aperceberam-se logo de mim  e o meu avô disse uma frase que todos acharam graça e riram e que me aterrorizou:

 

- anda cá, vem conhecer a professora, é esta que te vai dar umas valentes reguadas e por na ordem.

 

Desatei a correr dali para fora, desatei a chorar. Chorei tanto, tanto.

  

No primeiro dia lá fui amedrontada…com uma pasta quadrada de pele castanha. Velha. Já a via lá por casa há uns anos. O estojo, feito pela minha mãe, era de fazenda com um fecho. Um lápis, uma borracha e um caderno a estrear, tudo da mercearia da aldeia - “Oh maravilha!!!”. O pão com manteiga, esse, ia dentro de uma singela bolsinha de algodão branco bordada, como se fosse o “pão do Sagrado Corpo de Deus”.

 

Lá fui eu… salvou-me não ter muitas dificuldades, realmente. Levei uma vez, uma estalada, por estar a ensinar um colega. O Pedro.

Mas vi, assisti a tantas sessões de pontapés, reguadas, puxões de orelhas, gritos, choros, chichi nas calças, meninos a chorar à chegada. Afinal, era tudo verdade.

 

 

A escola…

A escola, típica e igual a todas as que existiam nas aldeias de Portugal, sem diferença do Norte e do Sul (ideia brilhante daquele Senhor, que até lhe tenho alguma admiração. Salazar) tinha uma sala, apenas. Mesas, cadeiras, um jogo de lego e um jogo com bolinhas para contar, 3 ou 4 livros de histórias, uma vitrina com pequenas pedras, um globo terrestre, um aquecedor pequeno (nos pés da professora) uma salamandra (que nunca vi acesa) um quadro grande e negro (dividido com traços de giz para separar as matérias), uma cruz, uma régua de madeira, uma cana grossa e suficientemente comprida para chegar da secretária da professora ao coitado que estava no quadro. Não tinha a foto de Salazar, foi retirada, estávamos já no pós-25 de Abril. Tinha um cheiro a soalho e pó de giz. Se fechar os olhos ainda consigo sentir.

Ali estávamos todos, 3ª e 4ª classe de manhã; 1ª e 2ª classe à tarde.

A minha 4ª classe foi o seu último ano no activo. Ninguém mais levou com ela. Graças a Deus. Fomos os últimos.

Hoje somos todos adultos, e existe algo muito forte que nos une. As lembranças. Só eu e a Sara Augusta seguimos os estudos. Ela já psicóloga formada disse-me um dia : “aquela professora, maldita. Era tudo o que uma criança podia temer.”

 

O meu pai, ainda há pouco tempo me disse:

- “a tua professora primária encontrou-me e perguntou por ti. Ficou muito feliz ao saber que estás tão bem. Tão atenciosa contigo.”

O meu pai… só ele…com aquela educação que eu chamo de “quadrada” onde o padre, o professor e o patrão são nossos donos. Não contava com a minha resposta, cheia de raiva:

- “Quero lá saber dela, não me voltes a falar nessa bruxa.”

 

Quando larguei aquela escola primária, tinha uma boa preparação…sem dúvida. O português e a matemática na ponta da língua. Excelentes bases. Foram muito úteis, ainda hoje o são.

Queria deixar aqui lembranças positivas…boas bases…só isso.

 

Já no ciclo preparatório, na vila, na comparação, era o paraíso. Aí começou outra aprendizagem,  a pessoal. A partir daí e fora da “muralha da aldeia” vi que o mundo tinha tanta coisa para eu conhecer.

Nunca mais parei…Licenciatura e emprego na capital foi o limite.

 

Como os tempos mudam…se os meus filhos lerem estas memórias, vão pensar que a sua mãe viveu nos anos 50…no mínimo.

Não meus amores, foram os anos 80 numa aldeia, longe do progresso, longe do mundo de tantos meninos da cidade, como o pai, por exemplo.

 

E Hoje…

Hoje, sou assim…resultado de uma luta tão desigual.

Hoje vagueio por entre tantos que tiveram escolas onde a professora era amiga, com passeios, jogos e cantigas.

Hoje, esses, compram mochilas e cadernos novos para os filhos, sem sentirem nada.

 

Hoje, tantos não sentem nada em Setembro…

sinto-me:
publicado por eueosmeus às 17:07
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