Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007
As luzinhas de Natal...
 

Este fim de semana lá por casa já se vive o Natal: árvore, presépio, grinalda na lareira, enfeite na  porta principal, pai natal pendurado na janela e luzinhas na varanda…chocolates, figos secos, nozes e um bolo rei folhado em forma de trança. E o mais ternurento…a  pantufinha do RUCA na lareira…vazia…à espera.
 
Uns (muitos) dizem que a tradição é fazer a árvore dia 1 de Dezembro. Já li que deve ser feita no dia de São Nicolau, dia 6 de Dezembro. Entendam-se.
Eu faço daquele momento tão nosso, tão mágico, aconchegante, saboroso e especial, quando o coração da família pede. Principalmente o coração saltitante e ansioso do meu Ruquita. Esse  é que comanda.
A alegria dele…a ansiedade de colocar os chocolates na árvore, o fascínio, a magia de Natal a 100%. Sem dúvida.
 
E eu, e eu alimento ainda mais essa magia, alimento o fascínio do pai natal e das prendas, das luzes e dos doces. Mas sem nunca, nunca faltar a verdadeira história do Natal…o nascimento de Jesus.
 
O presépio é montado com a participação do Ruca. À medida que lhe conto como tudo aconteceu ele vai colocando os bonecos, um a um. Dá um beijinho todos os dias ao menino deitado nas palhinhas, à mãe e ao pai, à vaquinha que o aquece, ao Baltazar, ao Belchior e ao Gaspar.
 
No centro comercial os fascínios atropelam-se, o pai natal a tirar fotos com os meninos, as montras cheias de brinquedos, as goluseimas, os chocolates, a azafama das pessoas a comprar…e nós os três, não somos excepção e somos umas baratas tontas também.
 
Como tantas outras, dentro de mim, tenho sensações fortes e contraditórias no Natal. Tenho as recordações de infância, lá tão longe e tão diferentes da realidade. Tenho o natal que conheci em Lisboa e agora tenho o Natal com o meu filho.
 
O meu natal era uma miscelânea. O frio e a humidade desagradável no desconforto da casa, era tão bom quando batia na cara enquanto eu escavava com as mãos o musgo. O sabor a vitória quando o pedaço que arrancava era grande e inteiro. Conhecia bem os sítios onde o musgo era mais viçoso e abundante. As mãos gelavam…
 
A caminhada, longa por vezes, para encontrar aquele pinheirinho. Sempre na ânsia que mais à frente devia estar um mais bonito. Pior era quando a indecisão começava. Cortava e abandonava, cortava e abandonava. Mas pronto, lá vinha contente e alegre com um que achava ser o mais bonito.
 
Umas fitas, uns pompons coloridos, uma estrela. O presépio era construído com pedras ornamentais e musgo. Os bonecos eram muitos e antigos. Eram bonitos e contavam a verdadeira história do Natal, do meu Natal. Não sei por onde andam. Gostava de os recuperar, lembro-me de todos.
 
Não tinha luzinhas para a árvore.  As luzinhas foram, num Natal qualquer, já era eu grandinha, o meu presente. Aqui vem a parte que me arrefecia o coração de criança, tão aquecido pela excitação normal dos preparativos.
Os presentes que a minha mãe inventava. Eram à imagem dela, descabidos…
 
Eu, nunca perdia a esperança, quando acordava, corria descalça e em pijama num pensamento positivo “este Natal vai ser bom”  e …
- a árvore tem luzinhas vês!!! É a tua prenda.
- um trem de cozinha, vês faz-nos tanto jeito. È a tua prenda.
- logo vamos à feira, compramos roupa.
 
Nem me lembro de mais. Decidi esquecer.
 
Recebi num ano um boneco. Gostei muito. Foi a única vez que me lembro receber um presente adequado a uma criança.
 
À tarde, a feira de Natal era tradição. Era feita num terreno barrento e inclinado. Chovia sempre e claro está, um cenário de lama, frio e cheiro a bifana.
 
A roupa era experimentada, entre uns panos ou então, muito mais confortável, dentro da carrinha do feirante. Lá me decidia por uma roupa “gira”. Mais 45 minutos de regateamento da minha mãe (que vergooonha). O meu pai desaparecia e quando era chegado o acordo, aproximava-se, sacava da carteira triunfante e com cara de chefe de família pagava.
Vínhamos para casa satisfeitos, eu pequenita gostava e ansiava por vestir a roupa nova.
 
À medida que fui crescendo este episódio foi-se tornando um pesadelo. Não me peçam para ir a feiras, por favor…
  
A noite da consoada, era normal. Um jantar, na cozinha de forno, como todos os outros. Um pouco mais de abundância, um bolo rei e filhoses. Filhoses de abóbora que eram amassadas, duramente, na tarde antes e fritas na lareira. Uma "trempe" (tipo tripé) e uma "péla" ( frigideira) sobre a fogueira. A minha avó ali estava horas, envolta no fumo e com o pingo sempre a escorrer do nariz. Lembro-me dela assim, mas com tanto amor e saudade.
 
Ainda hoje adoro as filhoses de abóbora (os chamados sonhos de abóbora em Lisboa). Hoje, na minha casa não faltam…
 
Lembro-me de o meu pai se sentir feliz e dizer-me sempre…temos saúde e estamos aqui todos. Eu entendia as suas palavras e respirava de alívio.
 
Os presentes era realmente um assunto que não existia, no meu Natal de infância. Os que existiam eram sem jeito, sem à vontade, sem propósito. O meu sofrimento por não ter presentes era mais fruto do que via na televisão do que qualquer outra coisa. Quando era adolescente, já não me iludia e  conformava-me. Passava o tempo a imaginar o que ia fazer um dia na minha casa…
 
O consumismo desenfreado e a compra de presentes à pressa, com o dinheiro a desaparecer e o desespero a reinar, confesso que não fazia parte desses meus sonhos. É a realidade de Lisboa e agora também minha…
 
Na minha casa, hoje, o Natal é bom…tem um sabor bom…é confortável e aconchegante…é construído por mim e pelo Rui…é nosso.
 
È tão aconchegante, tão bonito. Somos só nós e os meus pais que se juntam a nós. Somo 5.
Faço tudo como se fossemos 20 ou 30. Os doces, a mesa bonita, a abundância de comer, presentes, alegria e amor.
 
O Ruca vive o Natal que lhe construo, cheio de pormenores deliciosos.
 
Fico parada a olhar para a minha árvore. Grande, linda de morrer…com tantas luzinhas. Sinto-a a brilhar.
 
As luzinhas de Natal, há tantas em Lisboa, mas eu de certeza que as vejo com uns olhos muito especiais…
sinto-me:
publicado por eueosmeus às 15:28
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